1K Miles of Hope | Ep. 09: Nono Dia
6 de julho de 2026
Nono dia. Meia-noite. A avenida está vazia.
Por volta do sétimo quilômetro o tornozelo começa. Não grita — só avisa. A passada fica mais curta. Nunca fui bom em correr, pareço um pato tentando decolar. Reduzo. Se piorar essa noite, amanhã não ando — isso já aprendi.
A lua está baixa. Olho pra cima. Enorme.
De manhã eu tinha visto uma notícia. Um homem morreu de câncer avançado de estômago. Não tinha mais que cinquenta anos. Era conhecido como bom sujeito, de todo mundo. Meses antes de morrer ele tinha reunido família e amigos. Não pra se despedir — ele chamou de velório em vida. Ficou no meio da sala, cercado pelas pessoas que amava, sabendo o que estava por vir, e sorriu. Vi o vídeo no celular. Ele não estava performando. Era o sorriso de alguém que parou de fingir.
Fiquei pensando em Pau Donés boa parte da corrida.
Cantor espanhol. Em 2015, dores abdominais, diagnóstico de câncer de cólon. Cirurgia, quimioterapia, mais de trinta shows cancelados. Depois exames limpos. Depois, em 2017, recidiva — tumores no peritônio. Viveu com isso por mais cinco anos. Não parou de fazer música. Uma vez disse: "O câncer me fez muito feliz, porque eu estava perdendo muitas coisas da vida." Quis dizer isso. Antes do diagnóstico vivia em aeroportos e ônibus de turnê. O câncer parou tudo. Ele ficou com a filha. Prestou atenção.
Faleceu em 9 de junho de 2020. Cinquenta e três anos.
Ele e o homem do velório nunca se conheceram. Os dois chegaram no mesmo lugar do mesmo jeito.
O tornozelo afrouxa em algum lugar no décimo primeiro quilômetro. Pego ritmo.
Aí veio o carro.
Fiat Argo branco. Dois caras dentro. Meia-noite. Passou por mim uma vez — devagar, me encarando. Voltou. Estou acompanhando pelo canto do olho. Segunda vez, terceira, quarta. Na quinta passagem encosta, dá seta e fica lá buzinando. Motor ligado. Parado.
Pensei: nenhum conhecido faz isso. Não sou famoso o suficiente pra um estranho me reconhecer. Passei rápido pelas outras hipóteses e nenhuma era boa.
Corri mais.
Em algum momento o carro sumiu. Eu estava voltando pra casa.
17 planejados. 4 pra começar a fechar a dívida da semana passada. 21,02 no total.
Pau Donés é de Zaragoza. O bom sujeito era daqui. Não sei os nomes completos deles. Mas os dois fizeram essa corrida ter mais sentido do que qualquer quilômetro que eu poderia ter planejado.
Se você quiser fazer parte disso — não por mim, mas pela chance de que uma história dessas um dia não precise ter esse final — doe. Qualquer valor. O câncer não tem que ser uma sentença. Não no futuro que estamos construindo.
Doe — Apoie a Pesquisa contra o Câncer →
Qualquer dúvida, me escreva em contact@hanielrolemberg.com.